Impressões (quase sempre imperfeitas) sobre Cabo Frio, parte 2

Eu tava pra retomar a conversa sobre Cabo Frio aqui no blog, iniciada nesse post, mas é tanta ida e vinda do blog – somada à minha falta de disciplina pra escrever aqui diariamente – e acabei adiando e protelando. Mas esse fim de semana, aconteceram algumas coisas que me chamaram a atenção, e aproveitei pra dividir isso com meus poucos leitores.

A Cabo Frio de 2010 é bem diferente da Cabo Frio da minha adolescência. Não quero entrar na onda nostálgica de alguns blogueiros cabofrienses – cada tempo é um tempo, tem suas particularidades, suas diferenças. Mas a verdade é que uma boa parcela da violência que está aí, de uma forma geral, seja contra o meio ambiente, contra o patrimônio histórico da cidade, contra as tradições e, claro, contra as pessoas, acontece muito por falta de opções. Por falta de educação (é um problema nacional, não é exclusividade nossa), por falta de boas opções de cultura, de lazer. Por falta de oportunidades de trabalho. Por falta de visão das pessoas que tem alguma possibilidade de fazer as coisas de forma diferente.

Como vocês sabem, eu sou DJ e, há mais de 20 anos, toco na noite em boates, bares, clubes, festa de aniversário e afins. Se me chamam ou me contratam, tô lá. E vejo o quanto a cidade carece de opções pro jovem, principalmente, pro jovem da periferia. Pra quem tem mais grana, as opções são maiores: tem os barzinhos do Malibu (desde sempre ponto de encontro da molecada mais nova), os barzinhos do canal, as boates. Mas falta lazer nos bairros, falta o que fazer pra quem mora mais longe do centro. Normalmente o que tem são bares, música ao vivo (ou das máquinas de karaokê, a tão discutida invenção japonesa).

Muita gente critica quem fala sobre criar alternativas de lazer nos bairros. Levam sempre pro lado da medida elitista de “vamos manter a periferia por lá, daí eles não vem pra cá, não se misturam”. Isso é bobagem. Não é pela falta – ou pelo excesso – da mistura que Cabo Frio vai se modificar nesse aspecto. Somos todos filhos dessa mistura, somos responsáveis por ela, e também fazemos parte dela.

Tenho sempre tocado no Boulevard Pub, com meus amigos David Benigno e Vycthor (atenção, este não é um post pago. É apenas um jabá). Gosto do ambiente, das pessoas, não tenho muitas frescuras. Mas tenho visto que, seguidamente, confrontos acontecem no “Boulevard Canal” sem que seja feito algo a respeito. Semana passada, rolou uma porrada em proporções gigantescas, e um adolescente teve que se atirar no canal pra não apanhar. Neste sábado, um jovem foi assassinado na Rua Major Belegard. Passei por lá e só vi o choro de uma moça – deve ser alguém próximo – a PM, fazendo o trabalho de praxe, e um corpo estendido no chão, já com o saco preto por cima.

Só quem não conhece a Cabo Frio de 2010 pra dizer que a cidade não está violenta. Está, sim. E não só durante o dia, com as malditas “saidinhas de banco”. À noite, o bicho tá pegando também. O crack é uma realidade triste na nossa cidade. E aí eu volto no início do texto. A falta de tudo aquilo que falei lá em cima (de opção, de educação, de cultura, de lazer, de oportunidade de trabalho) empurra a molecada pra violência, pras drogas.

É muito fácil apontar os defeitos e não indicar um caminho a ser seguido. Não digo nem dar as soluções, porque de fora do problema todo mundo tem uma solução mágica. Como eu digo sempre, “da arquibancada é mole: o sujeito nunca perde um gol”. Mas o caminho que eu vejo passa por criar um circuito de atividades que corra toda a cidade e dê lazer pra molecada no seu bairro; que o Boleuvard Canal seja mais policiado, até ostensivamente, se for o caso, na sexta e no sábado à noite, que é quando enche; e que se intensifique ainda mais o combate ao crack. Sei que o Poder Público tem feito sua parte – e segurança pública é um problema bem sério no estado. Mas pelo menos eu tô falando o que eu penso – e o que estava engasgado há um tempão.

Anúncios

1 comentário

  1. Fala ai DJ, pra contribuir com sua matéria, aqui vai mais algumas informações a respeito do ocorrido na noite deste sábado (02 de Maio de 2010) no canal de cabo frio.
    Sinceramente não sei como se iniciou e nem o porque da pancadaria, mas fiquei extremamente chocado com a brutalidade e banalidade da vida humana, hoje em dia se mata por qualquer razão.

    Pois bem, estava em frente ao Galiotto quando começou um corre corre em frente ao bobs, fui me aproximando quando pude presenciar dois caras morenos que aparentavam uns 27 anos mais ou menos agredindo um outro cara de uns 30 a 35 anos que posteriormente veio a ser assassinado. Os dois morenos, espancavam absurdamente o rapaz que usava calça jeans e blusa branca, eram socos e chutes, por várias vezes ele caia no chão e os dois caras o agrediam sem dó nem piedade, até que um deles, pegou um pedaço de pau e partiu pra cima para agredir mais ainda o cara que continuava caído no chão, quando os demais perceberam tamanha covardia, resolveram então tentar defender ou apartar a briga, quando então o cara que estava com o pedaço de pau, deu uma paulada na cabeça de um dos caras que tentava apartar a briga e sangrando muito ele foi levado ao hospital. Por um certo momento a briga acabou. Mas derrepente o cara que teria sido agredido, voltou correndo para cima de um dos marginais que o agrediram e os dois cairam no chão, começou então novamente aquele tumulto generalizado com garrafas e tudo mais voando de um lado para outro, até que uma mulher que estava em companhia do rapaz agredido, pulou em cima dele e se fez de escudo, mas nem assim foi suficiente para apartar aquela cena lamentável. Mas o pior ainda estava por vir. Ao se aproximar uma viatura da PM, o tal cara de blusa branca que havia sido espancado, foi falar com os PMs e contou lhes os fatos, com aparência gritante de ter sido agredido, pois estava com o rosto inchado e alguns ematomas pelo corpo, tentou então localizar os caras que o agrediram, mas nesse momento, os marginais ao presenciarem a chegada da polícia, tiraram suas blusas para não serem identificados e correram em sentido à feirinha do canal. Os pms então ficaram com a viatura parada em frente ao Bobs e logo chegou outra viatura que também ficou por ali. Mas não foi o bastante para evitar uma tragédia que logo veio a acontecer. Cerca de 15 minutos depois, o barulho de 3 tiros. Os pms começaram a correr em direção ao local de onde parecia ter vindo os tiros e foi um corre corre danado, todo mundo correu ao ouvir os tiros e derrepente o canal ficou vazio. Todos os ali então presentes, foram também em direção ao local e puderam ver que Cabo Frio está virando a cidade do Rio de Janeiro. O cara após ter sido absurdamente espancado, parece não ter sido o bastante, então o assassinaram com 3 tiros na cabeça.
    Agora pensarei duas vezes antes de ir ao canal pela tamanha brutalidade.

    É isso aí.
    Abraços

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s