Flamengo 2012: onde a banana come o macaco

Flamengo 2012: onde a banana come o macaco

"Está tudo bem, está tudo lindo, não há crise alguma"

A confusão em que o Flamengo está envolto desde que o ano começou teve seu ápice entre a tarde de quarta-feira  e a manhã desta sexta-feira. Em um intervalo de pouco menos de 48 horas, uma sucessão de trapalhadas, mentiras, especulações e informações desencontradas colocaram um ponto final no trabalho de Vanderlei Luxemburgo no comando técnico do clube.

Concordo com os argumentos de quem defendia a demissão do treinador. Em aproximadamente 16 meses no comando da equipe, Vanderlei não conseguiu dar um padrão de jogo definido ao time, insistindo com uma formação apenas no 4-2-3-1, com poucas variações. Foi campeão estadual de forma invicta, é verdade, e conseguiu concretizar a classificação do clube para a Libertadores deste ano, mas o saldo acabou sendo insuficiente diante das expectativas criadas pela torcida.

Luxa não é mais um treinador de ponta. Apesar de conhecer muito de tática e estratégia, não tem conseguido voltar seu foco somente para o lado “técnico” do trabalho. Está sempre tentando aliar isso ao lado “gerencial” da coisa. E ultimamente, isso não tem funcionado.

Sobre a confusão que envolveu sua dispensa, um adendo se faz necessário: Luxemburgo está longe de ser um santo. Aliás, no futebol profissional, poucas pessoas se salvam (o jornalista Diogo Kotscho faz uma analogia genial no meu entendimento, que “futebol é igual às salsichas: quem conhece como é feito não consome”). Luxa criou ao seu redor um ambiente de trabalho tão hostil que acabou sendo inevitável a sua queda.

No entanto, a forma como a demissão aconteceu foi surreal. A decisão já estava definida há tempos – o próprio treinador tinha ciência disso. Apesar de todo o teatro feito pela presidente Patrícia Amorim (a Pat Ética, como bem definiu meu amigo Ricardo “Calhau” Henriques), primeiro na entrevista antes do jogo do Potosí, e depois, na inacreditável declaração à rádio Tupi, na quarta-feira, momentos antes do jogo da volta no Engenhão; e nas declarações debochadas à imprensa depois do jogo, passando pela foto visivelmente forçada dos desafetos Luxa e R10 na Bolívia, todo mundo (incluindo os jornalistas sérios, os não tão sérios e os que apenas chutam o tempo todo) já sabia que Vanderlei seria demitido.

À presidente e ao fiel escudeiro (e amigo pessoal dela e do marido tricolor, eminência parda no clube) Michel Levy, faltou na forma de demitir Luxemburgo o que faltou em toda a sua trajetória no clube: coragem. Como o time ganhou, Pat Ética não teve peito de demitir o treinador no vestiário. Na certa, ela acreditou que ele fosse pedir demissão na coletiva pós-jogo, e, com seu estilo briguento, fosse espalhar a merda no ventilador (e dar uma boa razão para o clube não pagar os R$ 4 milhões da multa rescisória).

Ao mentir, agir de forma covarde e não cumprir com a própria palavra, Pat Ética acabou cumprindo sua parte no trato com os irmãos Assis e se livrou de Luxemburgo (mas não da multa), o que já era previsto desde quando disse que “pagaria do bolso a parte da Traffic”, caso a empresa de marketing esportivo resolvesse romper a parceria Viúva Porcina estabelecida com o Flamengo em 2011.

Luxa x R10: na queda de braço, Pat ficou com o R10

As cinco semanas de 2012 do Flamengo entram pro almanaque de como gerenciar da maneira mais equivocada possível um clube de futebol – e porque não dizer, uma carreira política. Ainda que ela se sinta confiante para a reeleição no clube (já que o colégio eleitoral é restrito e, na avaliação deste colégio, ela está fazendo uma boa gestão), suas pretensões político-partidárias estão nos pés de Ronaldinho. Só uma temporada de ouro dentro de campo salva sua reeleição à vereança – já que sua base eleitoral sempre foi de torcedores rubro-negros.

E o que esperar daqui pra diante? Como confiar nas declarações de Pat Ética de que Vagner Love foi contratado com recursos integralmente pagos pelo Flamengo e não com um empréstimo do BMG que, em contrapartida, pegou percentuais de oito jovens jogadores do clube? Como acreditar que ela, a defensora da ética no futebol, não contactou o então empregado Joel Santana nesse período todo de turbulência?

Pat Ética e Vagner Love: quanto custou o atacante?

Esse início de ano mostra que, como reza o adágio popular, “a banana está comendo o macaco”. Está tudo errado, mas como diz a presidente (Pat) Ética, “está tudo lindo, está tudo bem, não há crise”. Dá pra confiar?

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Entrevista com Leandro

Entrevista com Leandro

Leandro, ex-lateral do Flamengo e da seleção brasileira, foi entrevista de capa do jornal “Na Jogada” de dezembro de 2011. A entrevista, feita pelo meu amigo e competente jornalista Léo Borges, foi abrangente e segue reproduzida abaixo na íntegra. A leitura é longa, mas vale à pena.

“José Leandro Souza Ferreira seria mais um brasileiro comum se seu talento não tivesse sido descoberto e aproveitado. A história começou há 35 anos, por um dos acasos da vida. A caminho de prestar o vestibular, no Rio de Janeiro, o ônibus onde estava parou em frente à Gávea, sede do Flamengo, e, dali em diante, a história de amor de Leandro com o Flamengo e com o futebol ganhou outro patamar.

A intervenção dos “deuses do futebol” foi fundamental para que o talento desse cabofriense não fosse perdido. Ainda jovem, Leandro foi dado como “desenganado” para o futebol por causa das suas pernas arcadas e de seu já problemático joelho.

Mesmo assim, a carreira prosseguiu, e por 14 anos, um dos melhores jogadores em sua posição em todos os tempos defendeu apenas duas camisas: a do seu Flamengo de coração e a da seleção brasileira.

O desfile pelos gramados do mundo inteiro foi curto, encerrando precocemente a carreira aos 29 anos.  Tempo suficiente para inspirar e eternizar sua grandeza, retratada em forma de estátua na Praia do Forte, principal ponto turístico de Cabo Frio, “quintal” da sua casa, onde jogou futebol por muitos anos.

Considerado por muitos o maior lateral-direito de todos os tempos, o cabofriense Leandro conta um pouco da sua história em uma entrevista especial onde fala da sua carreira, sobre seu tempo no Flamengo, sobre a seleção e até da Cabofriense. Leandro abriu o verbo e não titubeou ao responder perguntas polêmicas sobre sua carreira e sobre seu tempo como jogador. Até hoje idolatrado pela torcida do Flamengo, conta de tudo um pouco.

Chegada ao Flamengo

Eu sempre gostei muito de futebol, era chamado nos dias de hoje de fominha. Aquiem Cabo Frioeu jogava na praia, futsal, futebol de campo, em todas as peladas eu estava. Minha vontade de ser jogador profissional e, principalmente, no Flamengo era imensa, já que era meu time de coração. Então fui fazer um pré-vestibular no Rio, em 1976, e surgiu uma oportunidade de fazer um teste no Flamengo. E foi engraçado, porque não estava programado de fazer o teste. Fui com meu primo à praia do Leblon e, na volta, o ponto final era em frente à Gávea. Aí meu primo disse: “Faz um teste no Flamengo”. Aí eu disse que só fazia se ele pedisse, porque eu era muito tímido. Ele conseguiu e marcaram o teste. Nem chuteira eu tinha, peguei emprestada e o número dela era dois a mais do que eu calço. Fiz o teste e fui aprovado em apenas dois treinos. Aconteceu tudo rápido.

Pai e filho torcedores rubro-negros

O Flamengo não é o Flamengo pós-Leandro jogador. É de nascença. Meu pai, a gente não mede o sentimento rubro-negro. Sempre falam que um é mais rubro-negro que o outro, mas papai considero ele um dos maiores rubro-negros que existe e que eu conheço. Sabe torcer, sabe perder, é sarcástico nas brincadeiras. O pessoal em Cabo Frio sabe que não dá para sacanear ele, tá sempre com uma saidinha, uma resposta pronta. Na derrota ou na vitória. De radinho de pilha, ele me levava, aos domingos para deitar na cama dele.  Em 69, tinha 10 anos, uma passagem curiosa: a gente tava assistindo a uma final do Fla-Flu e o Fla tava perdendo. O rosto dele meio triste, preocupado e tal. Aí eu saí e fui na sala, ajoelhei e rezei. Pedi “Papai do Céu, faz o Flamengo empatar pra ver uma alegria no papai”. Aí o Dionísio empatou com um golaço de cabeça. Comprei um vinil, era o Jorge Cury narrando: “Murilo ultrapassa a linha divisória do gramado e levantou a boca da meta, Dionísio de cabeça, é golaaaaaço”. É assim a minha ligação com o Flamengo, de sair daqui com grupo para o Maracanã. Fundaram até uma torcida aqui em Cabo Frio do Flamengo. Acompanhei isso tudo, depois virei jogador, com todas as feras no Flamengo ao meu lado, Zico, Júnior, e aí você perde um pouco do torcedor, passa a jogador, só que com a responsabilidade, o lado torcedor de criança passa para dentro do jogador. Toda vez que entrava em campo, me transformava, era o vermelho e preto em pele mesmo. Sempre dei tudo pelo Flamengo, quando era uma derrota iminente, eu ficava pensando na tristeza, na vibração todinha do torcedor. Ele é um dos alicerces, me ensinou muito. Diziam no Maranhão que eu não joguei nem metade do que meu pai jogou. Ponto de apoio da minha família, ele que acreditou em mim. Minha mãe fez ele ir no Flamengo perguntar se eu tinha chance. Acho que dentro da educação, gerou tudo, você se forma dentro de casa para o bem e para o mal.

De torcedor para jogador

Foram 16 anos. Passa muito rápido. A minha carreira foi meteórica, não pensava em ser jogador profissional. Fui para o Rio e fui para a praia. Lá pedi para treinar. Foi uma, duas e deu certo. Em dois anos já estava no profissional, disputando o Carioca e sendo campeão. Uma loucura, cara! Você sabe o que foi?!! Eu sou reconhecido no Rio, nos shoppings e até em outros estados. Você saber que fez alguma coisa de grande, de importante e que a gente nem pensava nisso. Aqui de Cabo Frio, a vida da gente dá umas reviravoltas meio malucas. Com o talento que Deus me deu eu soube aproveitar. Treinava muito, gostava do que eu fazia, não queria e não gostava de perder.

Flamengo, único clube

Em 79 eu tive um problema no joelho, voltei a sentir dor depois da operação em 78, aí o Flamengo não podia ficar só com um lateral e contratou o Carlos Alberto. Fui para o Internacional e fiz o primeiro exame lá. Tinha passado, fiz o coletivo, e o Ênio Andrade tinha me escalado para jogar contra a Ponte Preta, já no domingo, pelo Campeonato Brasileiro. Aí eu fiz o outro exame, e o outro médico achou que a minha contratação não seria boa, dizendo que eu teria no máximo mais dois anos de vida no futebol. Graças a Deus ele botou esse médico na minha frente e eu retornei ao Flamengo. Foram dias difíceis até o final de 80. Depois, em 81, eu vim a ser convocado pelo Telê, e teve a minha estreia como titular jogando o jogo todo. O Telê me botou no jogo contra a Bulgária e foi no Estádio do Beira Rio. Ganhamos de 3 a 0 e eu fiz um gol. Um tapa de luvas que eu dei no médico lá.

Lateral ousado e zagueiro clássico

Algumas pessoas me chamavam a atenção. Eu tive uma birrazinha com o Rondinelli por isso, mas eu não fazia de propósito, eu não queria fazer firula. Na verdade como eu não gostava de dar chutão, eu via a possibilidade de sair jogando e fazia isso. Eu fazia numa de limpar a jogada, não de menosprezar o adversário. Eu queria fazer a jogada para ajudar meu time. No futebol, você tem segundos para decidir o que fazer, e eu decidia por fazer isso.

História com o goleiro Raúl na final de 82, contra o Grêmio

Não era só com o Raul, né? Mas por termos ficado juntos muito tempo, éramos companheiros de quarto na concentração, sempre brincávamos. O Flamengo no todo era uma grande família, todos torciam pelo sucesso do outro. Quando você tem uma amizade, acaba brincando com a pessoa. E o Raul conta nas entrevistas, sempre que perguntam de mim, sobre a final do Brasileiro contra o Grêmio, lá no Olímpico. O Grêmio estava pressionando muito agente, e sempre que a bola sobrava para o Raul, ele dava chutões na bola. Aí eu virei pra ele e disse: “Essa bola não vai adiantar Raul, ela vai voltar, é pior. Joga aqui pra mim”. E ele teimoso não queria mandar a bola. Mas eu estava reclamando tanto que ele com raiva mandou uma “pedrada” pra mim. Aí eu matei no peito e dei um lençol no Odair e sai jogando tranquilo. Voltei falando assim: “Joga em mim porque eu jogo pra cara… mesmo. Confia em mim, pô”. (Risos)

O apelido “Peixe Frito”

Na verdade tem várias versões. Que eu me lembre, tinha uma barraca, não sei se Kiquinho ou Babau mesmo, que vendia um peixe frito e onde eu tomava um choppinho. Daí caiu lá na Rádio Globo que a barraca era minha, aí colocaram Leandro Peixe Frito. Mamãe ouvia, botou o rádio de manhã cedinho e aí tinha uma chamada: acorda Peixe Frito, como tá o tempo em Cabo Frio. Ela ficava injuriada. Falava: “botei um nome tão bonito, Leandro, no meu filho para chamarem ele de Peixe Frito”.(risos).

Ano de 81, o melhor da carreira

Eu subi em 78, fiz 11 jogos pelo Flamengo, quando fomos campeões cariocas, e o Toninho era o titular. Em 80 fiz algumas partidas pelo Brasileiro, mas me firmei mesmo em 81, como titular da posição, com a saída do Toninho. Teve a oportunidade do Telê Santana, que me convocou pela primeira vez, e acho que dali eu engrenei, eu realmente subi na carreira.

Trinta anos da conquista do Mundial

Fica uma saudade grande. Às vezes me pego recordando lances do jogo e parece que foi ontem, mas já se vão 30 anos. Foi um ápice de um grupo vitorioso, bem unido, um grupo formado praticamente todo ele dentro do Flamengo. Essa é uma grande diferença em relação aos clubes atuais. Não existia nenhum tipo de vaidade, mas sim uma amizade e cumplicidade muito grandes. Além dos jogadores que formaram esse time de um nível técnico muito bom, a gente tinha essa amizade que faz com que um grupo seja vencedor. A gente olhava para cada companheiro e via o brilho nos olhos de querer ganhar, de querer melhorar cada vez mais. E o Flamengo tinha uma virtude muito importante: quanto mais títulos ganhava, mais sereno ficava, mais humilde, mas sempre querendo ganhar.

A homenagem que recebemos agora foi muito legal. Praticamente todos os jogadores estavam lá, e rever aqueles companheiros daquela época de tantas batalhas, de tantas lutas em campo e fora do Brasil, em torneios pela Europa, você sente que ainda resiste aquela amizade gostosa, pelo carinho com que a gente é recebido pelos companheiros. Acho que a torcida do Flamengo jamais vai esquecer, e a gente fica torcendo muito para que outros títulos possam vir. Tomara que a gente consiga nessa próxima Libertadores, mas o que fica mesmo é a saudade, uma saudade gostosa, boa de sentir.

Reencontro com os ex-companheiros

Eu costumo dizer que a gente merecia ter mais tempo para a gente conversar, fazer uma roda nossa de ano em ano, pra bater papo, pra relembrar, porque tem muita coisa. Passamos muito tempo juntos e, normalmente, uma homenagem é um momento muito rápido de encontro. Mesmo assim cabe um abraço, contar alguma história… As lembranças são muito boas e a gente sente que cada um tem orgulho do outro.

Histórias da final do Mundial

Final do jogo. Logicamente, tinha alguns torcedores do Flamengo que viajaram, fizeram aquele sacrifício todo. Na entrada do estádio, os próprios japoneses organizadores estavam distribuindo bandeiras de ambos os clubes. Eu lembro que na época o Liverpool tinha até mais bandeiras, eles optaram mais pelo Liverpool por ser um clube mais conhecido, e que tinha sido o time da década. Então, no final da partida, faltando dois minutos, a vitória já tava certa. Todos sabíamos que o título era nosso, e eu, por um instante, me peguei pensando: “Cadê minha torcida?”.

A gente tava acostumado com o Maracanã , comemorar junto com aquela galera toda e depois nas ruas ver o Rio, o Brasil todo colorido de vermelho e preto. Senti falta da torcida. Foi aí que fechei os olhos e mentalizei aquela massa toda do Maracanã e pude comemorar dessa forma com eles. Quando acabou o jogo, ficou um negócio meio frio, tava contente e tal, mas não tinha aquela vibração, aquela energia e o calor que vinha da arquibancada.

Liverpool, o Barcelona de 81?

Em termos de título sim. Como eu disse, eles eram o time da moda, que tinha conseguido três ou quatro títulos da Champions League e era o todo poderoso. Esses dias eu vi uma entrevista de um dos jogadores que se assustou com o nosso time e acho que eles pecaram em não procurar saber pontos fortes e fracos do Flamengo. Nós tínhamos feito um torneio em Napoli e jogamos com os melhores times da Itália, vencemos as três partidas e fomos campeões. Naquela época mesmo tinha surgido o Crawl, da seleção holandesa, e ele disse que nosso time era de outro planeta, como estão se referindo hoje ao Barcelona. E o Liverpool não ficou sabendo disso, achou que fosse entrar em campo e ganhar um time fácil. Quando viram nossa estatura, sambando, batucando, acharam que seria tudo muito fácil pra eles.

Flamengo 81 x Barcelona atual

O Zico acha que daria Flamengo por 4 a 2; eu acho que ia ser um grande jogo, muito bem disputado e de um altíssimo nível. Duas equipes com grande jogadores daria um prazer enorme assistir a um jogo desse, mas eu ainda acredito que daria Flamengo.

Toque de bola brasileiro: base do sucesso do Barcelona

Esse toque de bola o Flamengo sempre teve. É uma escola do Flamengo também, e quando o Coutinho chegou à Gávea, ele aprimorou mais ainda isso. Com posse de bola, a gente corre menos risco de levar gols. Por isso ficávamos girando a bola de um lado para o outro, fazíamos treinamentos, o que deve fazer o Guardiola hoje. A gente treinava muito isso, e ficava sem precisar entrar no gol. Para abrir essa defesa, era o pêndulo de que o Coutinho falava. E a posse de bola tava sempre com a gente, e leva uma vantagem danada quem fica com ela.

Futebol brasileiro: reinventar a posse de bola

Hoje em dia, você vê, chega um garoto de estatura mediana, ou mais baixa, e não tem chance nos clubes. Atualmente eles preferem um garoto forte, alto e de menos habilidade, ou quase nenhuma. Você bota um preparo físico nesse jogador, coloca ele para marcar, e tudo isso nas categorias de base, onde você aprende a cabecear, aprimorar matada de bola, passe de  esquerda, de direita… Havia esse compromisso por parte dos professores na época. Os campos também são outra questão importante, pois como você vai treinar um garoto, um passe de primeira, com um campo cheio de buracos? Lá na Europa tem isso, o campo de treinamento talvez seja melhor do que o que eles jogam.

Derrota na Copa do Mundo de 82

Eu fiquei decepcionado, sim. Apesar de ter sido o mais jovem daquela seleção em campo, já tinha uma certa experiência. Então, você sabe que quando você tá numa disputa pode perder de uma hora para outra e tem que estar preparado pra isso, apesar de que nem sempre todo mundo tá preparado para uma derrota, principalmente como foi aquela, muito dolorida. Mas o que eu mais senti naquela perda foi que dentro da seleção tinha uma geração de jogadores gênios: Cerezo, Falcão, Sócrates, Júnior, Zico… Eu olhava, às vezes, como se fosse à última oportunidade deles de serem campeões do mundo e, por merecimento, ficarem marcados, de coroar a carreira deles por tudo que eles fizeram no esporte. Ao mesmo tempo eu me via ali no meio deles, que poderia ter outra oportunidade por ser mais jovem. O que eu mais lamentei foi não ver esses caras campeões, eles merecerem demais.

Interesse do Barcelona em 82

Na época era muito difícil um zagueiro ser contratado. Acho que, bem antes, o Luis Pereira foi para o atlético de Madrid, e o Edinho saiu para a Udinese. A gente não tinha esse hábito; saiam daqui atacantes, goleadores que eles levavam mais. Mas eu não me preocupava com isso, não. Acabava meu contrato eu queria renovar logo, era do Flamengo que eu gostava, não tinha jeito. Houve uma proposta a qual fiquei sabendo pelo Michel Assef. Ele me chamou no vestiário e me disse que o Barcelona tinha ido atrás de mim, mas devido aos problemas do joelho eles descartaram. Mas foi uma consideração, logo depois da Copa. O futebol espanhol já estava de olho na nossa seleção.

Corte da Copa do Mundo de 86

Não me arrependo, mesmo sabendo que perdi muita coisa. Já tinha firmado patrocínios, contratos, mas eu senti e percebi como todo mundo me apoiou. O corte do Renato eu não achei justo, ele tava numa excelente fase, tava jogando muito, e o Telê já tinha uma birra anterior do Grêmio com Renato. Eu senti muito e posso ter errado no momento de dizer que não iria, que foi em cima da hora, mas aquilo vinha martelando na minha cabeça, me remoendo. No amistoso antes da ida, eu também já não fui bem, não tava com a cabeça legal, achei que não deveria ir.

A decisão de parar de jogar

Eu parei em 90. Fiz alguns jogos ainda pelo Campeonato Carioca e parei. Meu último jogo foi contra o Bangu, quando a gente perdeu de 2 a 1 em Moça Bonita. À noite, comuniquei, na verdade a um tricolor, que trabalhava lá na época, que era o Francisco Horta. Eu tentei voltar e poderia até continuar jogando ali como zagueiro, mas eu não ia render o que eu rendia. Eu sempre gostei de apresentar um bom futebol primeiro para mim, depois para a torcida, mas não tive depressão nenhuma, porque na verdade meus problemas físicos no joelho já vinham de longa data. Quando os médicos fizeram um exame mais minucioso, não acreditaram que eu ainda jogava bola, isso em 84. Minha artrose no joelho era de uma pessoa de 60 anos, uma parte da medicina que não tinha explicação. Então, eu já vinha me preparando há bastante tempo, pra uma possível parada definitiva, bem antes. Foi lúcida minha decisão, e sem dano nenhum.

Copa 2014

Dizem que vai dar tudo certo, né? Tomara que dê, mas eu to achando tudo muito atrasado, principalmente aeroportos, que é uma preocupação muito grande. Brasileiro tem sempre aquela crença de que vai dar um jeitinho e que em cima da hora vai dar tudo certo. Mas o negócio é muito sério, tem que estar tudo preparado antes. Em relação à seleção, me preocupo bastante. Os jogadores que vem jogando são esses, e ele convocou os melhores. Muita convocação, chegando a 100 e 150 atletas.  Antigamente você tinha 20, 25, e sabia exatamente aqueles que faziam parte do grupo. O Mano tem que pensar em fixar um grupo menor, focar nesse grupo e trabalhar nele. Se aparecer alguém, você incorpora nele, vai formar um grupo e trabalhar junto.

Otimismo para a seleção na Copa de 2014

É difícil, estamos a quase dois anos da Copa, tá muito em cima. É pegar essa base, trabalhar em cima e treinar. O Brasil não tem mais aqueles gênios, tirando Neymar e Ganso, que teve problemas de contusão. Temos bons zagueiros, laterais e se não aparecer ninguém de entrosamento dá para tentar.

Passagem do Zico como dirigente no Flamengo

O Zico tinha que vir como presidente do Clube, pra ele ter poderes, apesar de ter o conselho. Acho que o Zico quis tentar mudar alguns conceitos na Gávea, mas existem pessoas ali atrás que não querem as mudanças, porque não farão bem para elas. Assim tá bom, e assim elas continuam ganhando seu dinheiro. Por outro lado, o Zico, como entrou para trabalhar no Flamengo, deveria separar qualquer negociação com CFZ, por mais que tenha sido a intenção somente de ajudar, ele podia ter tomado mais cuidado nesse sentido, para evitar que as pessoas pensassem de outra forma.

Na homenagem eu me senti um pouco constrangido, disse que não ia, mas o Júnior me ligou dizendo que ia e que quase todos estariam lá. Me constrangeu um pouco. É meio como ir e o cara que deu isso tudo, o “rei”, não ir. Todo o grupo fazia parte, mas sabemos que ele decidiu mesmo não estar lá. Mas o Júnior me ligou e afirmou que quase todos estariam lá e que o Zico tinha passado uma mensagem. A mensagem dele foi muito legal. Nos disse que não poderia ir, elegantemente, porque tinha compromissos no Iraque, mas sempre deixando bem claro que a paixão dele é o Flamengo, que ele ama. Que era um momento especial para todos nós e que gostaria de estar lá com a gente. Mas é sempre ruim, a gente queria todo mundo lá, principalmente ele.

Patrícia Amorim

Tirando a “briga”, que não foi dela, mas ela tinha o poder de decisão, com o Zico, tá tudo bem. Ela tem boas ideias, inovou muita coisa… O lema do Flamengo sempre foi um, mas você pensa em uma coisa, entra outro presidente e não acompanha o raciocínio. Acho que a Patrícia tá certíssima em revitalizar o “Ninho do Urubu”. Sempre teve o lema de que craque o Flamengo faz em casa. Se o Flamengo tivesse esse CT há mais tempo já poderia ter a renovação do time, como o Barcelona, quem sabe. O Flamengo renovava naquela época, o time campeão em 81 foi o de gerações em campo. O Flamengo não é time mais para se concentrar em hotel, tem que ter a própria concentração.

Flamengo atual: esperanças de título na Libertadores?

Sinceramente, com esse time, não. Não mudou nada ainda. No início do Brasileiro, mesmo com a conquista do Carioca, invencibilidade grande no campeonato, eu falava pro meu pai: “É um jogo bom e outro ruim, depende de dois jogadores”. Não é um grupo que tem que ser compacto, pode perguntar para qualquer rubro-negro e ele vai te dizer, o Flamengo chegou longe mais pelos nomes e pela torcida e pela camisa, quando a gente mais precisou dos jogadores eles se esconderam ou estavam preocupados com outras coisas, não tiveram compromisso com o clube e nem com a torcida. Tem que fazer uma reformulação. Contratar jogadores, laterais, meio-campo, o time que quer ser campeão não pode ter três cabeças de área jogando, passes errados de um para o outro. Willians parece que devolve a bola pro adversário porque se ele não roubar se sente mal. Eu não confio nesse time atual, não, só se mudar muita coisa.

Saudade de jogar no Flamengo

Eu cheguei na Gávea em 76 e parei em 90. Foram, portanto, 14 anos só de Flamengo, graças a Deus. É uma casa sua, né? Você conhece todo mundo, do roupeiro, do cara que fica lá na portaria, na concentração, você conhece e faz amizade, ligação de manhã e de tarde, treino, contração e tal, realmente são muitas lembranças, amigos que fiz, não tem uma pessoa que diga que eu não fui amigo. Gostava quando eu chegava, a gente se sente um filho que tem que sair de casa e de vez em quando fazer umas visitas. É triste, mas a gente sabe que é assim.

Jogador que mais gostou de enfrentar

Eu não olhava muito para o adversário. Entrava com respeito num todo. Tinha alguns que você tinha que ter um cuidado maior, mas quando você não tinha, tomava um tombo mesmo era do outro. A gente entrava com a seriedade de sempre para evitar qualquer tipo de surpresa. Mas tínhamos o Reinaldo, que era complicado; o Dinamite, inteligente; Careca; Romário, que era um avião na época; Maradona, mas ele não ficava muito no meu setor.  De lateral, apesar de ter muito bons pontas naquela época, Júnior que falava: “não quero nem olhar quem é, mas deve ser um baixinho, troncudinho que corre pra caramba”. Tinha o Zé Sérgio, que eu graças a Deus não peguei, teve uma contusão. Ele cortava para a esquerda, direita, jogava no São Paulo e na seleção. Mas o que mais me deu trabalho, que era baixinho e troncudinho, era o João Paulo, do Santos. Esse me perturbou bastante, não fugia do pau. Não driblava, ele dava o tapa pro lado e cruzava que era difícil de pegar.

Humildade e reconhecimento nas ruas

Eu sei o que eu represento, a gente tem que saber. Às vezes, a Paulinha, minha filha menor, fala: “Papai, aquele cara tá te olhando”, hoje ela tá grandinha e entende que o papai foi um jogador assim e tal, papai foi um atleta, uma pessoa importante. Às vezes eu fico assim de falar até pra ela, mas tenho que explicar que joguei no Flamengo, time de massa, que muita gente gosta, que quando eu era pequeno também queria pedir autógrafo. E realmente eu me pego pensando: “Poxa, fui um jogador top, fui considerado um dos maiores laterais do futebol”. Não é pouca coisa, são muitos jogadores. Uma vez eu falei para o Romário: “Muitos jogadores passaram por aqui, você marcou o Flamengo, você está na historia do Flamengo, é importante”. Ser lembrado, reverenciado, isso me deixa constrangido, às vezes não sei como me colocar para tirar uma foto.

Hoje de manhã mesmo uma menina pediu para tirar uma foto. Sou muito tímido ainda, mas isso faz parte, eu sei o que eu representei, como eu soube o que outras pessoas representaram para mim. Num Fla-Flu, a torcida do Fluminense cantava para o Assis uma música, que dizia “o Assis acabou com você”. Eu sabia que algo ia acontecer naquele jogo, mas não que eu faria o gol de empate. A torcida do Flamengo gritou no Maracanã durante uns dez minutos, acabou o jogo e eles ainda gritavam “Leandro acabou com você”. Não esqueço.

Jogadores antigos na forma atual de jogar

O craque é craque em qualquer época. Vai saber jogar bola também, não muda nada, o que muda é o condicionamento físico. Se a gente corria 4 km naquela época, hoje corre-se 10 ou 8, evolução natural, mas inteligência não sai da pessoa se ela tem o dom de jogar.

Jogadores atuais que teriam vaga na sua geração

Todos eles jogariam, só iam abrilhantar, Neymar, Ronaldinho, acha que o Iniesta não jogaria na Seleção Brasileira? Não sei, né? Naquela época eram tantos jogadores de qualidade, mas em qualquer clube brasileiro seriam cracaços.

Um bom lateral-direito na atualidade

Tem jogos que eu até desligo a TV, não consigo ver porque me irrita, de tanta coisa errada. Mas temos alguns bons jogadores, mas na minha posição, na lateral, ainda pode ser o Maicon, pela experiência e força que ele tem. Não vi nenhum lateral surgir e despontar como grande lateral para chegar à Seleção Brasileira. Pode ser até que eu me engane e possa aparecer alguém aí.

Oportunidade de voltar a trabalhar com futebol 

Como treinador jamais. Jamais é complicado, né? Mas difícil, treinador não é para mim, eu fico muito nervoso. Como dirigente sim, como fui do Flamengo, como fui da Cabofriense, passando para a primeira divisão. Como dirigente, talvez sim. Eu lamento até hoje isso, certamente eu poderia ter dado alguma coisa ainda para a Cabofriense. Lembro que na época a Cabofriense tava com um investimento legal, times bons, poderia ter jogado aqui pelo menos uns dois anos e ajudado o time de alguma forma. Estamos abertos aí.

Cabofriense

Encontrei com o presidente Valdemir e ele me disse que ia disputar a segunda divisão, que o CT estava bom e surgiu até a possibilidade de colocar meu nome no Centro de Treinamento. Queria me levar para ver e tudo. Eu perguntei e ele me falou da segunda divisão, a Cabofriense tem que trabalhar categoria de base também porque não tem suporte para contratar, e quando contrata acaba o campeonato e vai todo mundo embora e volta à mesma rotina. Passa a ser tachado como apenas um clube de campeonato, de época, de período de poucos meses. Aí as pessoas já vêm pensando que vai ficar um pouco, receber e já pensando em outro clube que pode ir depois. Se começar a fazer um trabalho de base aqui, a gente pode conversar.

Jogadores vendidos e que foram revelados pela Cabofriense, como o atacante André, do Atlético Mineiro

Jogadores bons que se mostraram em seus clubes e suas carreiras fora. Todos jovens, acho que o Valdemir acertou na venda desses jogadores. E fazer o próprio CT e por aí vai.

Tamoyo Esporte Clube, outro clube do coração

Eu vivia na Associação (Atlética Cabofriense), né? Foi fundada pelo meu tio junto com o Alair Corrêa. Era atrás da casa dos meus avôs. O meu tio me levava para os jogos, tenho até foto pequeno com a camisa da Associação, tricolor, né? Mas a minha infância toda eu fui para o Tamoyo, tinha a sede, era aqui no Centro também e a gente frequentava bastante também. Tinha o quadro social e o futebol de salão, onde eu comecei. Cheguei a jogar no Tamoyo como zagueiro central algumas partidas com 15 anos, mas o Tamoyo só tinha o aspirante, como era chamado. Não tinha as categorias de base.

Rivalidade local

Futebol sempre foi minha paixão, a bola sempre foi. Eu não sabia o que era futebol, mas bola sabia. Mas acompanhava. Eu peguei jogo no Aracy Machado, campeonato muito bom, Mamaco, Teno, Moisés, Hélcio, Chico, nós tínhamos uma rivalidade imensa. Era aquela gritaria toda, o pau quebrava mesmo, o bicho pegava. Era uma época boa, que a gente lembra de domingo de jogos e era farra geral. Flamengo e Vasco, Flamengo e Bahia, jogos que aconteceram no Barcelão.

Infraestrutura esportiva de Cabo Frio

Material humano ta aí, a garotada tá aí, é maneiro, muito legal de você tirar essa garotada das drogas e de outras coisas ruins. Temos as condições, que são justamente esses centros esportivos, esses ginásios são bons, os poliesportivos, como o Aracy Machado, aquela área que vai sair o complexo. Temos opções para vários tipos de modalidades esportivas. No atletismo, por exemplo, temos bons atletas aqui na cidade. Quer dizer, o negócio é incentivar, aproveitar essa deixa da Copa do Mundo e das Olimpíadas. De repente, procurar um político para ter uma ajuda de fora, é uma cidade próxima do Rio de Janeiro. O caminho é esse, atletas nós temos. Só precisamos de trabalho e condições.

Estátua na Praia do Forte

Geralmente, estátua se dá a quem já morreu né? O Alair me surpreendeu e sou muito grato a ele. Não é uma coisa simples você ser eternizado ali na praia. Foi muito bacana, minha família ficou muito orgulhosa, muito satisfeita com o carinho dele. Eu lembro que, sem demagogia, um dos momentos mais felizes e importantes da minha carreira foi na copa de 82, num Brasil e Argentina. Nós estávamos perfilados, entrando em campo para ouvir o Hino Nacional, e eu dei uma olhadinha para cima e tava minha mãe segurando uma bandeira que ela fez aqui e a mãe do Zico do outro lado. Na bandeira estava escrito assim: “Leandro, Cabo Frio está com você”. Aquilo me encheu de orgulho e, imagina, as cartas que eu recebi do colégio, dos professores, de alunos na campanha do Mundial. E você ter a estátua passa um filme geral de você brincando em Cabo Frio, da sua infância, de pelada na rua, de praia e clube. Realmente é uma coisa que eu não sonhava em ter, por mais que tenha feito alguma coisa, uma estátua é uma coisa muito séria, muito forte.

Zico, Andrade e Júnior falam sobre Leandro

Leandro fez parte da geração de ouro do Flamengo, na década de 80, que conquistou quatro campeonatos brasileiros, uma libertadores, um mundial interclubes e muitos outros títulos. Por muito pouco essa bonita história quase não aconteceu, já que Leandro foi emprestado ao Internacional, em 1979, com passe fixado. Passou pelos exames médicos, mas por obra divina, o médico do Inter vetou sua contratação, devido a problemas anteriores do joelho. Dali por diante, surgiu um dos maiores ídolos da história do Flamengo.

Companheiros dessa geração de ouro, Zico, Júnior e Andrade não cansaram de elogiar o “Peixe Frito”, tanto pela sua qualidade técnica, quanto pelo seu carisma e “coração de ouro”. Segundo Zico, Leandro tinha uma habilidade fora do comum, além de saber trabalhar bem a bola com as duas pernas, sem deixar cair à qualidade no passe.

– Um dos maiores jogadores que eu tive oportunidade de jogar. Foi o primeiro jogador que eu vi trabalhar bem tanto com a perna direita quanto com a perna esquerda, uma facilidade que ele tinha enorme. Um cara espetacular que sempre colocava a emoção acima de tudo, um profissional dedicado e tenho a felicidade de ter jogado junto com ele durante alguns anos – elogiou Zico, se recordando das saídas de bola do ex-companheiro.

– A bola saia sempre limpa e isso facilitava pra todo mundo. Era muito bom vê-lo jogar, pela facilidade que ele tinha em jogar bola, né.

A qualidade de Leandro para sair jogando com a bola lhe rendeu discussões com o zagueiro Rondinelli e com o goleiro Raul. A autoconfiança e o trato com a bola permitiam a ele arriscar. Para Andrade, o lateral-direito improvisava a todo instante.

– Todos nós sabíamos da capacidade do Leandro, pois ele era capaz de fazer coisas que ninguém esperava, coisas fantásticas, que só jogadores acima da média e de muita qualidade fazem. Jogava com as duas pernas com facilidade e pra mim foi uma felicidade e um prazer jogar ao seu lado. Ele é o típico do jogador brasileiro, sempre improvisando alguma jogada. Na posição dele foi o melhor que eu vi jogar – afirmou.

Considerado por muitos como o melhor lateral-direito de todos os tempos, Leandro passou atuar na zaga por conta dos problemas no joelho. Na zaga continuou como um dos melhores na posição, mostrando que poderia jogar em alto nível em qualquer posição. Apesar de ter ido bem de zagueiro central, Andrade acredita que não existiu e não vai existir lateral melhor que o cabofriense.

– Não tenha dúvidas que ele foi o melhor lateral de todos os tempos. Posso afirmar com toda a certeza e olha que eu vi muita gente jogar naquela posição, mas igual o Leandro eu não vi. Tive o prazer de jogar ao lado dele, o que é melhor ainda. Igual a ele não vi ainda e com certeza do nível dele não vai aparecer outro.

A qualidade dos dois laterais – Leandro e Júnior – rubro-negros era tanta que ambos foram titulares da Seleção Brasileira na Copa de 82. Amigos até hoje, Júnior falou com muito carinho do ex-companheiro.

– Ele foi pra gente uma espécie de ídolo também. Tenho uma relação muito legal com ele, um cara que a gente viu crescer junto, fora a qualidade e a capacidade técnica, que não vale nem a pena a gente ficar ressaltando. Um cara sempre de grupo, que sempre procurou ajudar as pessoas, com um coração altamente generoso, uma pessoa bem quista por todo mundo e que é quase impossível ninguém gostar dele – comentou o “Capacete”.

Leandro nunca negou ser torcedor do Flamengo. Sempre diz que acompanhava o time com o seu pai, no rádio, e sempre que podia ia ao Maracanã. Era rubro-negro “roxo”. Quando virou jogador do clube, acabou levando esse lado de torcedor com ele, o que Zico não esquece até hoje.

– A mais emocionante foi quando nós ganhamos a Libertadores e ele vibrou muito, parecia um torcedor do Flamengo, o que ele realmente era. Uma imagem marcante, ele comemorando com a torcida, com aquela emoção de ter conquistado um troféu importante para o clube – finalizou o Galinho.

Estátua: homenagem justa

Em 2003, o então prefeito de Cabo Frio, Alair Correa, resolveu homenagear dois ídolos do esporte cabofriense com a estátua em frente à praia do forte: Leandro e Victor Ribas, surfista profissional e que por muitos anos foi o melhor surfista brasileiro. A homenagem marcou a vida de Leandro e seus familiares. Para Andrade, algo mais que merecido, já que além de um exemplo no futebol e como pessoa, Leandro levou o nome de Cabo Frio para o mundo inteiro.

– Estive em Cabo Frio e tive a oportunidade de conhecer a estátua. Eu acho que foi merecidamente, por tudo que ele fez pelo futebol. Cabo Frio abraçou e não podia ser diferente, pelo que ele representou para o Flamengo, futebol brasileiro e mundial e divulgando a sua cidade. Então essa estátua é mais que merecida –  concluiu”

Uma vez Flamengo…

Uma vez Flamengo…

“(…) Também é de 1911, da mentalidade anterior à Primeira Gran­de Guerra, o amor às cores do clube. Para qualquer um, a cami­sa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo, a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte: — quando o time não dá nada, a camisa é içada, des­fraldada, por invisíveis mãos. Adversários, juizes, bandeirinhas tremem então, intimidados, acovardados, batidos. Há de che­gar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no ar­co. E, diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável.

(Trecho da crônica “Flamengo sessentão”, de Nelson Rodrigues, publicado no livro “À Sombra das Chuteiras Imortais. Para quem não sabe, Nelson Rodrigues, um dos maiores – se não, o maior – cronista da sociedade brasileira no século passado, era tricolor)


Eu e meu irmão do meio, Elton. A foto é de 1979, eu tinha cinco anos.

Sou Flamengo nos títulos, nas derrotas, nas fases boas e ruins. Não me considero mais ou menos rubro-negro que ninguém, isso é bobagem.

Eu já era Flamengo antes de nascer. Não deixei de ser até hoje.

Era Flamengo quando o time tinha Zico, Júnior, Leandro, Adílio, Andrade… Também era Flamengo quando o time tinha Thiago Gosling, Irineu, Walter Minhoca… E continuo sendo Flamengo hoje, com o time que tem Ronaldinho e Thiago Neves, mas que também tem Fierro e Renato Pelé…

E vou ser Flamengo até o dia em que eu morrer. Ou até depois disso…
#Flamengo116Anos